Entrevista com Lisa Rands, campeã de bouldering

Publicado em por Amandina Morbeck em Entrevistas
Lisa Rands em três momentos: Fish Slough Arete, The End of the Affair e Horror Arete Crop - Fotos: Wills Young. bouldering -

Lisa Rands em três momentos: Fish Slough Arete, The End of the Affair e Horror Arete Crop – Fotos: Wills Young.

Essa entrevista que fiz com Lisa Rands aconteceu em 2005. Na época eu trabalhava como repórter na revista Aventura&Ação e, mensalmente, entrevistava uma mulher com destaque no mundo da aventura (no presente ou no passado). Para reprodução aqui, atualizei as informações em janeiro/2016.

Em 2005, Lisa tinha 30 anos de idade e já era reconhecida e respeitada como uma das melhores entre os praticantes de bouldering, uma forma de escalada em rocha sem ajuda de equipamentos, apenas com a força muscular, numa modalidade totalmente dominada por homens.

Campeã do Petzl Roc Trip em 2005, que aconteceu no Canadá, ela foi a primeira americana a ser número 1 do mundo nas competições de bouldering, a primeira mulher a escalar grau E8, realizou primeiras ascensões em boulders com graus em dois dígitos (a partir de 10), que são extremamente difíceis, e foi a primeira também a resolver problemas de grau V12.

Na sua lista estão o Midnight Lightning (nível de dificuldade V8), localizado no Parque Nacional Yosemite, e o Plain High Drifter (nível de dificuldade V11) e o Mandala, ambos em Buttermilks e todos no estado da Califórnia. Essas vias de bouldering são famosas mundialmente e encaradas apenas pela elite da modalidade.

Nesses últimos dez anos, ela continua a busca por superação em diferentes desafios nos Estados Unidos e em outros países, como Inglaterra (The End of the Affair e Gaia), Argentina (Saint Exupery Spire ou Agulha de Saint Exupery no Fitz Roy, na Patagônia) e China.

Lisa Rands em Hueco Tanks em El Paso, Texas - Foto: Wills Young. Bouldering.

Hueco Tanks em El Paso, Texas – Foto: Wills Young.

Na época da entrevista, demorei um pouco para conseguir contatá-la, principalmente se considerarmos que dez anos atrás a internet ainda não oferecia tantos recursos como hoje em dia. Mas já a partir do primeiro e-mail ela se mostrou bem acessível e interessada em ver sua história compartilhada por aqui e, para ilustrar a entrevista, enviou todas essas fotos em alta resolução – feitas pelo escalador e fotógrafo Wills Young, que era seu marido na época e continuam juntos até hoje.

Vamos à entrevista:

Amandina Morbeck: Como começou seu interesse por bouldering?
Lisa Rands: Há doze anos, experimente minha primeira escalada em rocha perto da casa de meus pais em Bishop [Califórnia]. Fui fisgada instantaneamente e, nos primeiros anos, fiz escalada tradicional e pouco bouldering. Meus amigos e eu começamos a praticá-lo como forma de nos prepararmos para outros tipos de escalada. Há noves anos, porém, descobri que essa técnica é muito mais divertida.

AM: O que você faz que é diferente de outras mulheres e que a tornou a número 1 nessa modalidade?
LR: Curto escalar problemas de boulder altos e difíceis. Em vez de focar em tentativas de fazer muitos pontos, escalo os que me inspiram pela beleza da linha ou que causam impacto visual ou são mentalmente desafiadores. Não limitei meu foco em apenas um estilo, mas tenho melhorado minha técnica em diferentes tipos de rocha. Essa abordagem me ajuda a ficar motivada e escalar muitos problemas incríveis.

AM: Você compete com homens também?
LR: Só com meu marido! Sempre escalo com homens fortes, por isso o melhor para mim é concentrar na minha própria escalada e não no que eles estão fazendo.

AM: Por que a subida do Plain High Drifter em Buttermilks, Califórnia, um problema de grau V11, é um marco em sua carreira?
LR: Fui a primeira americana a escalar esse grau, mas não é isso que o torna especial para mim. Primeiro, fui com o Wills e o Chris Sharma, que o escalaram e eu só observei. Dois meses depois, voltamos lá e resolvi tentar. Escalei as partes difíceis muito rapidamente e o Wills ainda não tinha conseguido fazer o crux [movimento mais difícil numa escalada].Quando acabei, percebi que estava me limitando por ficar preocupada com o grau, V11, em vez de seguir minha intuição. Ele continua sendo um problema extremamente difícil e poucas pessoas escalam essa linha alta e bonita.

Lisa Rands pintando as unhas de verde antes de um evento. Foto: Wills Young. Bouldering.

Pintando as unhas antes de um evento – Foto: Wills Young.

AM: Você tem algum ritual ou preparação especial antes de um evento?
LR: Quase sempre gosto de pintar minhas unhas de verde ou de azul. Mas devo dizer que quanto mais participo de eventos, mais vejo que relaxar e curtir me mantêm motivada e bem-sucedida.

AM: As pessoas te chamam de mulher-aranha? Algumas fotos com você me remetem a isso.
LR: Isso aconteceu apenas uma vez num artigo de jornal. As pessoas que veem fotos acham que sou alta. Quando me encontram pessoalmente ficam surpresas ao verem que tenho apenas 1,65 metro.

AM: Do que você mais se orgulha de ter conquistado?
LR: Há muitas coisas, como ter me formado em geologia e escalar o problema de boulder Thriller (V10) em Yosemite. Mas escalar a rota The End of the Affair (E8) no The Peak District na Inglaterra foi uma grande conquista para mim no aspecto mental, porque foi necessário um novo nível de concentração e de comprometimento.

AM: Você acha que bouldering pode danificar a natureza? Como as pessoas deveriam se portar com relação a isso?
LR: Fazer qualquer atividade ao ar livre causa algum impacto na natureza. Agora, se os praticantes de
bouldering agem de forma responsável, isso pode ser minimizado. Se não deixarmos lixo na área e formos cuidadosos para não jogar nossos colchonetes sobre a vegetação, causamos pouquíssimo impacto.

AM: Li que você é fã da Hello Kitty e tem uma tatuagem dela no corpo.
LR: É verdade. Desde pequena, adoro a Hello Kitty e tenho uma tatuagem dela na lombar.

AM: Como você e Wills Young se conheceram? Há quanto tempo estão casados?
LR: Nos conhecemos numa área de bouldering (claro!) e estamos casados há pouco mais de um ano.

AM: Como é a vida da “esposa de Wills Young”? Você tem tempo para, digamos, ser dona de casa?
LR: Namoramos por tanto tempo que a vida de casados não faz muita diferença. No ano passado, compramos uma casa juntos e isso foi uma grande mudança para nós. Há muito o que ser feito e quando não estamos escalando, trabalhamos juntos nela. Este ano, fiz duas cirurgias no joelho, fiquei muito tempo em casa e escalei pouco. Ainda assim, não consigo me ver como uma dona de casa!

AM: O que você faz quando não está escalando por aí?
LR: Depende do lugar onde eu estiver. Moro numa cidade pequena, num lugar lindo, perto das montanhas, mas é meio entendiante. Se estou em Bishop, pedalo e faço caminhada com meus amigos, fazemos churrasco ou jantar na casa um do outro. Estou aprendendo a fazer vitrais e em nossa casa há muito o que ser feito também. Tento ler quando posso, mas parece que tenho cada vez menos tempo.

AM: Como é que você curte sua solitude?
LR: Gosto de fazer caminhada ou correr pelos morros. Às vezes, pedalo sozinha, bem cedo, curtindo a natureza ao redor. Aproveito esses momentos para colocar meus pensamentos em ordem e refletir sobre a vida.

AM: Como é isso de ser entrevistada por uma revista latino-americana pela primeira vez?
LR: Estou honrada por vocês estarem interessados em mim. É incrível, uma entrevista no Brasil!

AM: O que você sabe sobre o Brasil? Que mensagem deixaria para seus fãs e para os fãs de bouldering por aqui?
LR: Vi algumas fotos do Rio e de escaladas ao redor da cidade. Parece fantástico! Encontrei alguns escaladores brasileiros amáveis e motivados que me contaram sobre algumas áreas de bouldering bem legais por aí. Vocês têm sorte de ter uma comunidade empolgada de praticantes que curtem o esporte num país tão bonito. Uau! Parece incrível e um dia eu quero ir aí, com certeza!

Lisa Rands em Curbar, Inglaterra - Foto: WIlls Young. Bouldering.

Em Curbar, Inglaterra – Foto: WIlls Young.

AM: E quais são seus planos para o futuro?
LR: Depois desse tempo para recuperação das cirurgias no joelho, estou supermotivada para voltar a escalar. Em breve, a temperatura ficará mais baixa em Bishop e quando isso acontecer há alguns problemas de boulder por perto que quero experimentar. Em alguns meses, devo ir à Patagônia para escalar. Será minha primeira viagem à América do Sul e estou empolgada. Quem sabe se não curtir a transição para grande paredes lá… Ou se você não me encontrará escalando nos boulders de El Chaltén [Argentina].

 

 

PING-PONG

Música: Tudo, menos country.

Livro: Memórias de uma gueixa, Arthur Golden

Ator: Brad Pitt (quem mais?)

Uma pessoa que admira: Lance Armstrong, por sua luta e por sua determinação tanto na bike quanto fora dela.
[Lembrando que essa entrevista foi em 2005, muito antes da decadência do ídolo e da perda de todos os seus títulos conquistados, em 2013, após sua confirmação de dopping nas provas que competiu, principalmente no Tour de France, que venceu sete vezes.]

Um lugar para voltar: Todos que já visitei.

Uma lembrança da infância: Quando meu amigos e eu ficávamos pulando do telhado da casa de um deles. Éramos muito novos e nessa fase parece que o corpo é feito de borracha. Ficávamos comparando para ver quem era mais corajoso (ou mais estúpido) e pulávamos do ponto mais alto. Talvez estivéssemos treinando para cair dos boulders e não sabíamos.


Abaixo, veja os vídeos (partes 1 e 2) que mostram um pouco da história de Lisa Rands e alguns desafios que ela gosta de encarar, principalmente – na parte 2 – o This Side of Paradise, grau V10, em Buttermilks, Califórnia. Áudio em inglês, mas as imagens falam por si.

Espero que você tenha curtido conhecer ou saber mais sobre Lisa. Para acompanhar suas façanhas, curta sua fan page no Facebook.

Amandina Morbeck

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